Notas para falar sobre gênero

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Falar sobre gênero, para mim, nunca foi um exercício de definição. Sempre foi uma tentativa, às vezes falha, de sustentar aquilo que não se organiza. Para falar sobre gênero, lançado em 2021, foi escrito com Gabriela Romeu e Januária Alves e publicado pela Editora Moderna. Ao mesmo tempo, desenvolvi Borboletas e Sereias, lançado em 2020, dirigido por Bárbara Cunha e Paulo Caldas, produzido para a TV Brasil e exibido em rede de TVs públicas, a partir do edital de TVs regionais. Os dois trabalhos nasceram no mesmo campo de incerteza; um tentando nomear, o outro deixando escapar.

Na série, atuei como pesquisadora e roteirista. Além de criar o dispositivo e os roteiros de filmagem junto com os diretores, acompanhei as crianças no set como parte do próprio processo de criação. Havia ali uma dimensão que não era apenas narrativa, nem pedagógica, mas ética: criar condições para que compreendessem o que estava sendo feito, o que estava em jogo, o que significava, para cada uma, ocupar aquele espaço. Talvez já estivesse ali um deslocamento que só mais tarde consegui reconhecer: a recusa de tratar o gênero como conteúdo a ser transmitido, e a tentativa, ainda instável, de pensá-lo como experiência, como relação, como imaginação em disputa.

Os dois trabalhos não vieram um depois do outro.

Foram se fazendo ao mesmo tempo.

E talvez seja justamente isso que explica a sensação de desencaixe que ainda hoje reconheço entre eles; não como falha, mas como fricção. Enquanto eu tentava organizar algo pela palavra, outra coisa escapava pela imagem. Enquanto uma linguagem buscava aproximação, a outra já estava em deslocamento.

Eu estava atravessada por perguntas que não conseguiam se organizar.

E, ao invés de esperar que elas se resolvessem, acabei escrevendo, e roteirizando, no meio delas.

A série não veio como explicação.
O livro também não.

Os dois surgiram como tentativas de aproximação de algo que não se deixava fixar.

Havia imagens que não cabiam em conceito.
E palavras que chegavam sempre depois.

Em algum momento, comecei a perceber o gênero não apenas como estrutura ou imposição, mas como um campo de imaginação na construção de si. Não uma imaginação livre, mas uma imaginação tensionada, atravessada por normas, violências, expectativas, e, ainda assim, capaz de produzir desvios. Talvez seja aí que algo se abre: não na definição do que se é, mas na possibilidade de imaginar-se de outro modo, mesmo quando essa possibilidade é frágil, intermitente, incompleta.

Minha experiência com gênero nunca foi conciliadora. Não houve síntese, nem momento de reconhecimento pleno. Houve, ao contrário, um acúmulo de desencontros. Um esforço contínuo de tradução que nunca se completava;  até que, em algum ponto, essa tentativa de caber se esgotou.

Quando encontro Judith Butler e a ideia de que “o gênero é a repetição estilizada de atos”, reconheço a estrutura, mas o que me interessa são as falhas dessa repetição. Os momentos em que ela não se sustenta. Em que o corpo não responde como esperado. Em que algo se desloca, mesmo sem nome.

Essas falhas começaram a me interessar como linguagem.

E talvez seja nesse ponto que livro e série também operem: como dispositivos de imaginação. Não para afirmar identidades, mas para tensionar seus limites. Borboletas e Sereias sustenta corpos e presenças que não se deixam organizar facilmente. O livro tenta se aproximar disso pela palavra; sabendo que não alcança. Ambos pelas linguagens e dispositivos da não-ficção.

Nenhum dos dois resolve.
E talvez não seja essa a tarefa.

Ao longo do tempo, fui entendendo que essa disputa não acontece em um vazio. Não existe um “nós” neutro a partir do qual falar de gênero. Existe sempre uma localização — racial, histórica, política. Como insiste Lélia Gonzalez, “não há neutralidade possível” quando se trata de experiência social.

E quando essa percepção se aprofunda, a própria ideia de gênero começa a se deslocar: não apenas como algo a ser ampliado, mas como algo cujo próprio fundamento pode ser questionado. Maria Lugones afirma que “o sistema de gênero é parte da colonialidade do poder”.

Isso não traz conforto.

Ao contrário, abre mais perguntas.

E eu não sei se meu trabalho tenta respondê-las. Talvez ele tente permanecer nelas.

Penso na ideia de fuga em Dénètem Touam Bona: “fugir não é desaparecer, mas inventar outras formas de vida”. Em alguns momentos, sinto que é isso que procuro: não reorganizar o que já existe, mas criar desvios, pequenas brechas onde outra coisa possa emergir, mesmo que de forma precária.

O Festival Cabíria, entre 2019 e 2024, foi um desses lugares de tentativa. Um espaço onde questões que me atravessam individualmente encontraram uma dimensão coletiva e estrutural. Ali, falar de gênero deixava de ser apenas uma questão de identidade para se tornar também uma questão de acesso, de linguagem, de quem pode narrar e em quais condições.

Em 2017, participei também da construção coletiva de um edital de curtas afirmativos da Spcine, onde atuei como jurada e mentora dos documentários. Não penso essa experiência como abertura, mas como fricção: disputar critérios, tensionar escolhas, interferir — ainda que parcialmente — nos mecanismos que definem o que ganha forma e circulação. Ver emergirem trabalhos de Júlia Katherine, Renata Martins, Carol Rodrigues e Diego Paulino, entre outras pessoas, produziu em mim uma sensação concreta de potência e alegria — como abertura de mundo e interseccionalidade.

Sigo pensando no corpo como algo que resiste à linguagem que tenta organizá-lo. Como escreve Silvia Federici, “o corpo é o primeiro território de exploração” — mas talvez também seja onde essa exploração encontra resistência.

E há também um gesto que permanece como deslocamento ético dentro do próprio livro. A inclusão do contato do Disque Denúncia de Violência contra a Mulher — 190 — não veio como apêndice informativo, mas como fissura no próprio objeto. Uma tentativa de fazer com que a linguagem não se esgote em si mesma. De que crianças possam não apenas ler, mas acionar algo — proteger-se, proteger suas mães, suas mais velhas — ainda que essa não seja uma responsabilidade delas — e talvez também protegê-las da impotência de não saber o que fazer diante da violência.

Se hoje eu volto ao livro, não é para reafirmar o que ele diz. É para escutar o que nele ainda não estava claro. O que já apontava para uma instabilidade que eu ainda não sabia sustentar.

Talvez falar sobre gênero tenha sido, desde o início, aceitar que não há domínio possível sobre esse campo. Que qualquer tentativa de definição é provisória. E que, como escreve bell hooks, “a teoria pode ser um lugar de cura” — não porque resolve, mas porque abre.

Não como falta.

Mas como movimento.


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